Mariposita
Sentia nostálgica cada minúcia daquele avermelhado lugar.
Aquela morena debruçada no parapeito de uma varanda, que a fumar demonstrava passos sinuosos de alguma dança latina.
Aquelas pessoas na rua, vestidas em cores radiantes; aquele lugar radiante, onde o sol se põe alaranjado insistentemente reluzente.
O som dos trombones mais vividos e das congas mais malandras; aquele dialeto que dá às pessoas deste lugar tão guerreiro timbre ao cantar.
Sabia, com a certeza de uma dançarina de tango, o tipo de homem que ele era. Isso a fascinava. Havia música na praça e compartilhar tais sons com ele era praticamente um coito. Ela tinha espasmos de desejo a cada vez que juntos ouviam música. Este hábito tornou-se, em pouco tempo, seu incessável jogo de sedução.
Passavam dias de sagazes descobertas. A cada música compartilhada eram mais próximos, mais íntimos. Mais cúmplices.
Com o tempo este hábito que vem do instinto sofreu uma metástase. Já não compartilhavam apenas as músicas. Acendiam seus cigarros no mesmo momento, apenas para compartilharem do sabor de cada trago. O mesmo com a bebida. E ainda mais com a música.
Seu flerte era elevado. Trocavam tapas e carícias por meio de um diálogo tão tênue que beira o inconsciente. Sutis. E mais uma vez: cúmplices.
Suas semanas passavam-se sofridas. Encontravam-se sempre aos finais de semana. Os mais tensos finais de semana ao som dos gatunos pianos dos bares daquele lugar. O cenário perfeito para o tipo de jogo que vivam. Ensaiavam alguns receosos passos a dois... Às noites de final de semana... Ah, que leveza... A mais pesada das levezas.
Eles nunca se tocaram.
Escrito por Phantom Ship às 07:38:03 PM
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